TALHO ALCINA

09-07-2020

No Talho Alcina, foi a Cristina Coelho que recebeu a Cátia Cardoso e o Ricardo Oliveira. A simpatia já lhe conhecíamos, a timidez não, mas essa desapareceu durante a conversa. Orgulhosa do negócio, da família e da arte, conta-nos como tem passado estes dias tão diferentes de uma Pandemia, que Cristina deseja que sirva a evolução da Humanidade, mas não  acredita que vá mudar muito o ser humano. 


Cristina,como é que nasce esta profissão?

Esta profissão nasceu aqui no talho depois de me casar. Antes os meus pais também tinham um talho, uma salsicharia, ainda têm...agora é do meu irmão, que é o fumeiro Ribeiro. E nós começámos nessa altura, depois casei e vim para aqui para o talho, trabalhar com o meu marido.

Portanto, é uma profissão que já vem de família?

Sim, sim, sim...

Vocês sempre lidaram com este negócio de ...

Carnes.

Com a carne?

E com fumeiros.

O Fumeiro é uma marca distintiva aqui no vosso talho, não é?

Sim. É o fumeiro Ribeiro, sim.

E é também uma referência aqui na zona de Castro Daire.

Eu penso que sim (sorri). É.

Este negócio, já me disse que veio de família, acha que é um negócio que realmente pode também ser o futuro dos seus filhos?

Hum... Eu, eu até gostava, claro que sim, mesmo que eles até tirassem outros, cursos, de outras áreas, mas que continuassem com o negócio de família, claro que sim.

Neste negócio o que mais a cativa?

O atendimento ao público, ver a satisfação do cliente gostar do nosso trabalho, do nosso fumeiro, tudo isso me realiza enquanto profissional.

Quando nasce também a oportunidade de ter este negócio, como é que chegam até ele? Já percebi que casou e que ficou com o negócio, apesar de já ser também um negócio que já conhecia muito bem, e este lugar foi escolhido porque vocês são de cá?

Também porque somos de cá e temos muito amor à terra, e gostamos de divulgar os nossos produtos, tanto é que quando se ouve falar nos fumeiros de Castro Daire para nós é muito um motivo de orgulho.

Em tempos de Covid, foram todos obrigados a parar um bocadinho, apesar de vocês serem um bem essencial, que tiveram de estar com o negócio aberto, como é que se gere essa situação, como é que se consegue trabalhar, como é que foi o rendimento, foi possível continuar a trabalhar e a ganhar com isso?

Possível...a trabalhar dentro das medidas de restrição, não é?! Mas fomos entregar a casa aos clientes, fizemos todos os possíveis para que as pessoas se protegessem e nós demos o nosso contributo, mas mantivemo-nos abertos para garantir sempre as compras necessárias para as pessoas, sim.

Até porque são bens alimentares... São bens necessários no dia-a-dia, que todos nós consumismos.

Claro, claro que sim.

Em tempos de Covid, sente que o negócio está normalizado ou está a recuperar gradualmente? Estava mais fraco antes e agora está melhor, como é que faz o balanço da profissão, do negócio?

É assim, inicialmente, houve uma procura grande, porque as pessoas pensavam que nós íamos fechar e tiveram medo e compraram mais...

Quantidade?

Em Quantidade, mas depois, aperceberam-se de que nós íamos manter-nos abertos e continuou tudo normalmente, dentro, lá está, das restrições, mas fomos mantendo o negócio. Já fizemos a avaliação em relação aos outros anos e foi menos, mas... mas mesmo assim foi dando, claro que sim.

No vosso ramo existe uma arte, porque saber cortar a carne também não é para todos. Há ainda jovens que despertem para esta profissão?

Sim, isto é uma arte. Mas... Não, não, não vejo. Não vejo. Não sei, se calhar estou enganada, não é?! Eu vejo isto como o que eu faço, pessoalmente.... não sei os jovens já não... (risos) Mas faço isto com muito orgulho, acredite, por tudo... eu trabalho nesta profissão também porque herdei, não é? Mas gosto de a fazer, mesmo, sinto-me realizada enquanto isso, agora os jovens... eu tenho dois filhos jovens e não sei se eles...

Os filhos, vamos falar dos filhos. Eles ficarão com este negócio?

É o que eu lhe digo...

Gostaria que eles ficassem?

Eu gostava, eu gostava que eles ficassem, claro que sim, mesmo que fossem procurar outras, mas que, mas que mantivessem, pronto... daqui para a frente não sei.

Demonstram interesse em conhecer o meio?

Eles gostam.

Eles demostram interesse e gostam de partilhar, mesmo nós à mesa em casa, partilhar novas coisas e eles são muito interessados, sim.

Em tempos de Covid ficamos de facto também muito isolados, também muitas vezes certamente ficaram sozinhos aqui e tiveram tempo para pensar e meditar. Pensa que há coisas que gostaria de ter feito e ainda não fez e que é a hora certa de fazer?

Por mim, pessoal?

Sim.Há sonhos que não realizou, que gostaria de ter realizado e ainda não realizou? Falta-lhe tempo para si?

Às vezes falta-me tempo para mim, sim. Mas é o que eu lhe digo, quando vejo as outras pessoas felizes com o meu trabalho, sou realizada. Eu sou mesmo feliz a fazer o que faço.

E em relação ao mundo e à nossa sociedade, há alguma coisa que lhe incomode muito e que gostaria que fosse mudado para bem da geração que se segue?

Tudo isto é um fenômeno...Está aí o Covid, estas novas pandemias, isto é assustador! E se calhar temos que dar um rumo novo à nossa vida, à nossa maneira de estar, à nossa maneira de ser, para ver se conseguimos evitar outras pandemias. Deus queira que nunca mais venha nenhuma, não é? Mas, sim, temos que se calhar dar a volta ao mundo.

Mas antes de existir um Covid, certamente que havia lacunas na sociedade e coisas que também a incomodavam.

Claro que sim, há tanta coisa que nos incomoda. Os egoísmos, os egocentrismos, todas essas coisas me incomodam muito. Mas não vale a pena, porque estas coisas vão continuar sempre.

Já não há nada a fazer?

Não há nada a fazer.

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Joana Ricardo Miranda