SAPATARIA RIBEIRO

11-07-2020

Fausta Ribeiro, herdou o negócio do pai. E a história dela é comum a muitos que contam as mesmas pisadas. Adivinham a falta de passagem de testemunho do negócio e resignada, não pena com a ideia, congratula a melhor sorte dos descendentes e agarra-se aos dias felizes.

Como nasceu este negócio?

Foi o meu pai que montou a loja há 43 anos. Eu estou aqui há 43 anos.

Mas era um negócio dele?

Era um negócio do meu pai. Ele trabalhava em sapatos, fazia sapatos, há 60 anos atrás. Depois, começou a ir para a feira vender sapatos e daí surgiu aqui a loja.

E a Fausta já acompanhava também o seu pai nessas feiras?

Sim, sim, sim...

Como é que o pai entra neste negócio?

Antes de ter este negócio a arte dele foi aprender de sapateiro com um senhor chamado Felício. Depois, daí foi para os Mortolgos, onde ele vivia com os avós dele- que ele nem vivia com os pais, vivia com os avós... com o avô, que a avó já tinha morrido.

Viveu aí, não sei precisar quantos anos foi. Daí, casou, foi para Lamelas, onde fez uma casa e os fundos da casa eram uma oficina. Uma oficina onde o meu pai fazia os sapatos. Ao fim de semana ia buscar os sapatos às aldeias: Ribolhos, Carvalhal, Pinheiro, Póvoa, Reriz... era por aí... Pinheiro, onde ele ia à missa... Ali, ao fim da missa, vinham as pessoas da Desfeita, de Moção... Tudo o que era para arranjar, ele trazia para casa. Durante a semana compunha e, a seguir, no outro fim de semana, ia entregar aos clientes.

Depois, a partir daí, surgiram as fábricas de sapatos, não é?... Ele começou a ir comprar sapatos e foi para as feiras vender os sapatos

E depois, mais para a frente, veio então o início da loja...

Depois, passado algum tempo, surgiu então uma lojinha (onde é hoje a loja das malas). Estivemos lá um ano. Depois, a partir daí viemos para aqui, para esta loja... estamos aqui há 42 anos, fez agora em maio 42 anos. Foi assim. Sim, desde os 14 anos que eu estou aqui com ele.

E o negócio sendo seu, como é que vai dinamizando este negócio até aos dias de hoje?

Isto é como tudo, uns dias melhores, outros dias piores.

Mas gosta? O que é que a cativa mais neste negócio?

O atendimento ao público. Gosto de estar com as pessoas.

E a escolha das coleções é difícil?

É o pior. É complicado, porque a gente nunca sabe... vai comprar, nunca sabe se vai vender ou se não vai, (não é?)

Qual é o vosso público alvo? Que tipo de pessoas procuram os vossos produtos?

Geral. No geral, classe média, por aí.

Como classifica a sua sapataria?

Sei lá... Acho que tenho bom produto, que tem qualidade.

Isso é o mais importante, não é?

Qualidade e conforto.

Quando surge a pandemia e vos obriga a parar, que passos vocês dão para dinamizar o negócio e criar um novo arranque?

Isto foi um bocadinho complicado, ficámos um bocadinho à toa, à nora... Tivemos que parar completamente, e agora, vamos indo devagarinho.

Como é que está agora o negócio?

Um bocadinho fraco.

Vocês têm também vendas online?

Sim. Tenho o Facebook, onde ponho os meus produtos e quem quiser comprar...

E em tempos de pandemia, isso foi o vosso veículo?

Pouco.

Mas porque as pessoas não aderem ou porque vocês não gostam muito de trabalhar online?

Não, também parei, porque tinha pouco artigo ainda... a nova coleção ainda tinha chegado. E também um bocadinho por aí.

Parou um bocadinho, não é?

Sim, parou um bocadinho.

Sendo que este negócio já veio do seu pai e também é o da sua vida, vê que este negócio possa continuar na família?

Ponho as minhas dúvidas! (Risos)

Sabendo a resposta- que já sei de antemão- mas sou obrigada a fazer-lha: Netos, primos, ninguém da família mais próxima que queira eventualmente ficar?

Se calhar, não. Não. Os meus filhos não querem enveredar por este caminho, também não vejo assim ninguém na família... não sei, não sei... família mais direta, acho que não. Filhos, penso que não. Não mesmo.

E fica triste com o fim dessa história?

É assim, não fico triste, porque se eles enveredarem por um caminho melhor, acho ótimo.

Mas do negócio em si?

Se morrer?

Se morrer não, se um dia quiser parar e mudar, e deixar de trabalhar, por exemplo?

Não, não fico triste.

Foi feliz?

Fui. Fui. Estou aqui há 43 anos e sinto-me aqui bem.

Se pudesse mudar alguma coisa na sua vida, o que mudaria?

Que pergunta tão difícil...

Há algum sonho que tenha ficado por realizar?

Não. Não, porque eu vivi aqui. Olhe, vi nascer aquele (Ricardo). Vi nascer o irmão. Foi aqui sempre que eu vivi, desde os 14 anos, por isso... é aqui que eu me sinto bem.

Como é que olha para este mundo atual?

Não é fácil, mas esperamos para ver.

O que mais a incomoda nesta nossa sociedade?

Olhe, de momento, o que mais me incomoda é mesmo as pessoas ficarem sem trabalho e não terem dinheiro para fazerem a sua vida normal. Isso incomoda-me muito. Sempre me incomodou as pessoas não terem trabalho para terem dinheiro para comprar uma coisa ou outra... isto atrapalha-me muito mesmo. No momento, é o que mais me aflige... as pessoas não terem trabalho. É, é isso...

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Marta Pontes