SAPATEIRO TONITO

07-07-2020


António Carlos Ferreira Cardoso, apaixonado do futebol e da sua arte, é sapateiro há 30 anos. Começou cedo, é jovem ainda, sobretudo no espírito empreendedor. 

Em vésperas do confinamento devido à pandemia Covid-19, adquiriu o negócio onde tinha até então sido empregado. Negou-se a cruzar braços e é como patrão, que reinventa o seu espaço apostando em venda cruzada e na oferta de multi-serviços que se vão adaptando ás necessidades actuais. Desejamos-lhe sucesso, e  continuidade desta visão atenta no que pode ser útil.

Como é que esta arte acontece na sua vida?

Desde pequeno mesmo, estudei só até ao sexto ano. Abandonei os estudos e vim logo para aqui para este local. Portanto, estou neste serviço há quase 30 anos.

Começou como funcionário?

Sim era funcionário. Há três meses é que estou estabelecido por minha conta.

Como é que encara este negócio?

Está um pouco difícil, como em todos os negócios, mas vai havendo para o nosso dia a dia. Acabei por me estabelecer por minha conta, precisamente para isso, para tentar garantir o meu sustento.

Com tantos anos de profissão? O que é o que o cativa?

Gosto! Acima de tudo... Porquê? Porque, cada serviço que aparece é uma novidade. É sempre algo diferente que nós estamos a fazer e eu gosto dessas coisas, de fazer sempre algo diferente. É nesse sentido que eu me sinto bem aqui.

É um desafio cada par de sapato que vem? Ou cada obra que tem de mexer?

Digamos que sim, porque cada sapato é diferente.

E é uma aprendizagem também? É sempre uma coisa nova que tem de fazer.

Também, é isso.

Sendo que estes tempos difíceis, coincidiram com a a transição de empregado para patrão, que obviamente traz muitas diferenças. Como é que encara o negócio? O que é que mudou? As pessoas estão a gastar menos este tipo de serviço?

É natural com esta pandemia, a Covid, as pessoas ficaram retidas em casa e é natural que ao ficar em casa não vão gastar tanto calçado. Nós em casa usamos um calçado diferente que usamos na rua, portanto logo aí nota-se muito baixa no serviço.

Sendo o negócio seu, vê este negócio a ser, eventualmente no futuro, de alguém da sua família? Pode passar este negócio à próxima geração?

Eu gostava, mas não é fácil. Mas mesmo em termos de arranjar um empregado, é muito difícil. Os jovens não vêem o sapateiro como profissão, dá-me impressão de que as pessoas têm um bocadinho de vergonha. Mas é um serviço honesto. É preciso gostar-se. As pessoas quando falam do sapateiro dá impressão que uma pessoa menos culta. É a nossa arte. E alguém tem de o fazer.


Acha que os jovens não gostam da arte? Não estão preparados? Vêem como um pouco negativo? Ou as pessoas ainda não se abriram para ensinar esta arte?

Já tive aqui vários miúdos a tentarem. Com o meu antigo patrão, colaboramos com A Sol (IPSS local).

Estiveram cá alguns miúdos, mas não se adaptaram bem e parece-me que tem vergonha de dizer que são sapateiros. É um bocado por aí, penso eu.

Acha que é um negócio que um dia vai acabar?

Penso que sim.

E isso deixa-o com alguma tristeza?

Isto corre o risco de acabar. Vem aqui os meus fornecedores, todos os meses, e todos os meses eles me dizem que um colega meu fechou. Porque são mais idosos, se calhar sou dos mais novo a trabalhar nesta arte, e as pessoa que mais trabalham são as mais idosas e não tem a quem passar e acabam por fechar.

Mas você aqui enquanto loja não tem apenas esta parte dos consertos dos sapatos. Tem também outro tipo de serviços. Nomeadamente, chaves...

Porta-chaves, carteiras, malas, chaves para automóveis, para casas. Telecomandos para garagens. Faço um pouco de tudo. Matrículas para automóveis, motas.

Uma data de serviços que podem ser aqui encontrados.

Sendo que estamos em tempos difíceis, e que também estivemos muito tempo isolados, quando há pouco eu entrei, dizia-lhe que devia ser uma daqueles negócios que não parou. Há sempre muito trabalho que vocês vão deixando para ir fazendo, e neste tempo de pandemia, se calhar esteve aí muito tempo sozinho a consertar algum do material que estaria aí nas prateleiras.

Neste tempo deu para pensar neste estado actual? Como é que vê o seu futuro? Que coisa que gostaria de a mudar na sua vida? Quer na sua vida pessoal como no mundo actual que nos rodeia.

É um bocadinho difícil responder a esta pergunta, isto não esta fácil. Provavelmente não é só no meu ramo. As pessoas estão receosas. As pessoas não saem, não gastam.

Não sei, não sei mesmo o que dizer.

Gostaria que as pessoas começassem a sair com todos os cuidados?

Sim, sim, claro com todos os cuidados possíveis. Mas acho que vai demorar um pouco de tempo.

Mas se em tempo da Covid-19 decidiu ficar com o negócio, é porque tem esperança no futuro?

Sim, claro que pensamos no futuro. E que vai melhorar.

É claro, os sapatos é um ramo que a tendência é acabar. Mas temos as chaves que vão usar-se sempre. Telecomando das garagens. Hoje em dia, qualquer garagem tem um telecomando. E as pessoas vão precisar desse serviço.

E os sapatos também? Arranjar sapatos também?

Os sapatos também, mas hoje em dia o sapato é quase usa e deita fora. Já não vai ter conserto, são fabricados de certos materiais que por vezes é muito difícil fazer os arranjos. E as vezes nem compensa, a realidade também é essa.

E em relação ao nosso planeta? Há alguma coisa que o incomode naquilo que vê ao seu redor e que gostaria também de ver mudado?

As pessoas estão mal-habituadas, isto é uma questão que tem de ser alterada, mas por todos não é só por alguns. Esta pandemia veio-nos ensinar isso. Porque este mundo estava mal-habituado. Espero que isto tenha servido de lição para o futuro.

Mas mal-habituado em que sentido? Da forma como nos comportamos com o planeta, com as pessoas? Em que sentido?

Um bocadinho de tudo, nós vamos na rua e é só lixo por todo lado. É um bocadinho por tudo.

E o planeta também é uma preocupação que nós devemos ter?

Claro que sim, porque não há outro.

Se acaba este, não podemos ir para lua morar para lá!

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Alice Inácio