SAPATARIA FLÁVIO

24-07-2020

Marisa Monteiro faz parte de uma nova geração de comerciantes.  Tiveram mais estudos que os pais, e com eles trazem uma visão mais global e ambiciosa de expansão. Uma  evolução  e vocação  que se nota neste caso, mas que nem sempre natural para quem pega nos negócios dos pais.

Pelas redes sociais, inovam com boas fotografias de produto, ou vídeos que animam e comunicam , com atenção ao cliente. Adivinha-se um futuro com a visão estratégica que já conhecemos desta família (ora espreite lá a entrevista, O Enxoval).

Como é que nasceu este negócio?

Este negócio já tem muitos anos. Isto era do meu do meu pai, entretanto passou para mim e para o meu irmão, mas isso já... esta loja iniciou em 1992.

Portanto, um negócio que já passou de pais para filhos?

Sim, já passou de pais para filhos...

Vocês tendem também a estender o negócio, não é, porque já saíram de Castro Daire?

Sim, nós temos uma loja em São Pedro do Sul e futuramente, próximo, vamos abrir em Oliveira de Frades.

Portanto, também aqui, mesmo apesar de tempos difíceis como este, ambicionam o negócio e a expansão do negócio?

Sim, nós não podemos ter medo de arriscar. porque se tivermos medo de arriscar também não conseguimos ir a lugar nenhum, não é...? Mas, vamos ponderar. Nós éramos para ter aberto, mas agora com esta pandemia adiamos mais um tempinho.

Sentiu-se muito esta pausa que o Covid obrigou a fazer? Como é que vocês se reinventaram?

É assim, notou-se um bocado quando tivemos que estar parados/fechados, era através do online, através da net, que as pessoas entravam em contacto connosco e enviávamos algumas encomendas pelo país inteiro. Agora notou-se no início, quando voltamos a abrir, que as pessoas não aderiam tanto, ainda estavam com medo, com receio, primeira semana, segunda, pouco movimento, e agora, olha, vai aos pouquinhos, já se vê mais algum movimento, mas nada como era antes.

O vosso comércio é calçado, calça-se aqui todos os pés, desde os mais pequeninos aos mais adultos?

Exactamente, há aqui para todos os gostos e para quem quiser nos vir visitar. Claro que sim, há de tudo um pouco.

O que é que, sendo que acabaste de referir, que a empresa já veio dos pais, portanto, já nasceram um bocadinho neste mundo, que três coisas destacarias aqui, que gosto vêem também em trabalhar neste ramo?

Eu sou suspeita, porque eu adoro aquilo que faço, Cátia. Eu adoro, adoro estar a atender o público, adoro o calçado, não sei o que te diga. Oh, pá, venham que são sempre bem atendidos, isso eu tenho a certeza absoluta.

Aqui também, um dos negócios de Castro Daire que passa de geração em geração. É possível que essa geração continue para a que se segue?

Vamos ver...

E que continue a ficar num negócio de família?

Não sei... Gostava, mas é assim, não vou... eu tenho uma filha, não é, o meu irmão também tem filhos. Há-de ser o que eles quiserem. Eu também fiquei, nunca fui obrigada, foi uma coisa que eu quis e que sempre gostei de fazer, vamos ver o que é que se segue, aguardar.

Mas ela demonstra interesse pelo negócio?

Ah... (sorri)

Gosta deste contacto com o público, não?

Para já acho que não. Infelizmente. Mas não, ainda é nova também, mas pode ser que lhe desperte o interesse, mas neste momento, acho que não...

Vocês tiveram sempre esta vontade de ficar com o negócio dos vossos pais?

Sim, até porque eu no meu décimo segundo ano de escolaridade enquanto estudava já estava aqui na loja, foi sempre mesmo aquilo que eu quis. Eu nunca tive dúvidas que era isto que eu queria fazer.

Sendo que agora também o negócio está a expandir e, portanto, vamos ver esta marca também mais um bocadinho espalhada na nossa região. É a marca Sapataria Flávio que vocês querem que fique registada, com que características?

Nós queremos que fique a marca registada com a característica que sempre tivemos, que é qualidade, o conforto e o bom atendimento também, não é?

Depois de um balanço que todos nós certamente fizemos, eu pergunto se a Marisa também teve esta oportunidade de o fazer. Gostarias de mudar alguma coisa na tua vida, alguma coisa, algum projecto que tenhas parado e que neste momento gostavas muito que iniciasse?

Não. Não, porque é assim, eu sinto-me realizada com aquilo que faço, tanto a nível, pronto, profissional é mesmo o eu que gosto de fazer. A nível pessoal também até agora está tudo realizado dentro daquilo que eu quero e que eu gostava de ter...

Olhas para o mundo diariamente com que olhar?

Olho com um olhar triste, porque apesar desta pandemia eu acho que as pessoas continuam iguais. Continuam com raivas, com... pronto, com várias, com várias coisas. Mesmo ainda agora a questão do racismo, horrível! Acho que foi... acho que as pessoas não aprenderam, não aprenderam muito.

E era isso também que gostarias de mudar, se pudesses mudar realmente alguma coisa no comportamento das pessoas, o que é que gostarias mesmo que mudasse? Esses comportamentos?

Sim, gostava. Gostava que as pessoas antes de fazerem qualquer coisa pensassem: e se fosse eu? Se estivesse eu daquele lado, o que é que faria, será que gostava que me fizessem o mesmo? Acho que as pessoas deviam pensar mais umas nas outras.

Os nossos filhos estão preparados para este mundo que actualmente temos, ou entretanto ele vai mudar e eles terão também um futuro mais risonho?

Eu quero acreditar que sim, mas não sei, isto está um bocado complicado, o mundo está um bocado virado do avesso e tenho um bocado de medo, e temo um bocadinho pelo futuro dos nossos filhos.

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Joana Ricardo Miranda