JANELA DA TRADIÇÃO

19-09-2020

A paisagem faz valer a pena a viagem por uma estrada que urge recuperação. O que encontramos na mesa farta do Restaurante JANELA DA TRADIÇÃO, é o suficiente para colocar Mosteiro de Cabril como aldeia a visitar obrigatoriamente, a par das mil e uma histórias e tradições que se descobrem deliciosamente nesta Serra  e neste vale de um Rio que corre entre margens tão íngremes e tão próximas, tais como os problemas e as potencialidades que marcam a dicotomia destas nossas aldeias.

Roberto Correia, um jovem com o futuro inteiro pela frente investiu toda a sua esperança, num espaço com potencial mas a precisar de renovação. Iniciou o negócio pouco antes do confinamento devido á COVID-19. 

Não perdeu a fé, e reabriu para mostrar em força a arte da sua companheira, a Andreia, que tão nova impressiona pela qualidade enquanto cozinheira, não ficando nada a dever a grandes Chefes de Cozinha, não só pela  qualidade na execução mas na criatividade com que reinventa o tradicional. 

Encantaram-nos pelo palato, e pelo talento que vemos numa cozinheira , assim tão jovem! Ir e apoiar  e divulgar estes jovens, é ajudar a nossa região,  ajudar a construir o que pode vir a ser um restaurante de referência, fazendo-se jus ao saber e ao espírito empreendedor deste casal. 

Ide!


Antes de mais, começa por me apresentar o teu restaurante.

O nosso restaurante chama-se Janela da Tradição e estamos aqui em Mosteiro de Cabril, perto da estrada nacional que leva aos Passadiços do Paiva. O nosso restaurante usa apenas produtos da região, sobretudo a vitela arouquesa. Temos pessoas que vêm mesmo à procura dessa mesma vitela. Também temos o nosso cozido à portuguesa e a vitela assada em forno de lenha aos domingos.

O vosso público frequente é aquele que vai visitar os Passadiços do Paiva?

Sim, também temos muitas pessoas que vão visitar os Passadiços do Paiva, assim como pessoas que vêm ficar no alojamento local. Muitos turistas vêm aqui, principalmente aos fins-de-semana. Depois trabalhamos também com pessoas aqui da região porque gostam muito do trabalho que nós apresentamos. Tentamos sempre ter coisas caseiras, feitas à moda antiga. Um exemplo é o nosso cozido à portuguesa, em que a carne vai para a salgadeira. Tentamos sempre dar o nosso melhor.

Vocês pedem dicas a familiares para confecionarem estes pratos mais tradicionais?

Sim, no início era a avó da minha mulher que vinha fazer o cozido à portuguesa todos os domingos para ela aprender.

Isto, ao que percebi, é um projeto de jovens.

Exatamente. Eu tenho 25 anos, a minha mulher tem 20 e é a cozinheira. Começámos em novembro e está a correr tudo muito bem.

Como é que vens parar a este negócio?

Eu sempre estive ligado ao mundo da restauração. Desde pequenino que a minha mãe e os meus irmãos trabalhavam neste meio. Depois, juntei-me com a minha mulher que é de uma aldeia aqui perto e surgiu esta ideia de negócio. Como temos família que trabalha, por exemplo, em talhos, que nos conseguem fornecer produtos de qualidade, decidimos apostar nisto.

Quantas pessoas é que trabalham contigo?

Trabalhamos eu e a minha colega aqui à frente e a minha mulher e uma ajudante de cozinha lá dentro, na cozinha. Como temos bastante procura, se continuar a crescer assim vamos precisar de contratar mais pessoas.

O estado de pandemia, desencadeado pela covid-19 veio limitar a lotação dos espaços. De que forma influenciou o vosso negócio?

Sim, influenciou muito. Por norma tínhamos à volta de 100 a 120 pessoas. Trabalhávamos muito bem. Agora que tivemos de reduzir o número de mesas e aumentar o distanciamento entre elas, baixou um pouco. Já éramos para ter feito remodelações no espaço, mas como tivemos de estar fechados, não nos foi possível. Tentamos ter todas as normas cumpridas, como manda a DGS.

Têm redes sociais?

Temos! No facebook é Restaurante Janela da Tradição e no Google basta também procurarem-nos através do mesmo nome.

Esta é uma forma das pessoas fazerem reservas?

Sim, claro! Principalmente através do facebook. Todos os dias respondemos, somos assíduos na página.

Vão divulgando também o que vão produzindo?

Claro, sempre que fazemos alguma coisa nova, nós publicamos.

Sendo tão jovens, não pensaram sair do país, como tantos outros da vossa idade?

Sinceramente, já pensei sair do país...

O que é que te fez não ir?

Tenho um filho pequenino... e quanto ao mais velho, apesar de não estar comigo, não o podia deixar. O pequenino, não o queria criar num país que não fosse este, porque gosto muito do nosso país e acho que a nossa região tem muito potencial. Não acho que tenha de sair para sobreviver, para viver. Se formos trabalhando e explorando o que o nosso país tem para oferecer, não temos de sair do nosso país.

Achas que há medidas que ajudam os jovens a criar o seu próprio posto de trabalho?

Não sei...

Sentiram essa facilidade?

Não procurei muito. Investi os meus fundos, arrisquei um bocadinho também e está a correr bem. Era um risco que eu estava a tomar. A quem perguntei foi-me dito que não havia incentivos assim para jovens, pelo menos naquele momento e nós não podíamos estar parados.

Sendo que vocês começaram há tão pouquinho tempo, tiverem receio com esta pausa que foram forçados a fazer?

Claro que sim. Quando se tem uma empresa, as despesas aparecem na mesma. Nós estando fechados não tínhamos qualquer rendimento e tínhamos um filho para criar. Foi um mês e meio encerrados, em que se não tivéssemos já as nossas poupanças de lado teria sido complicado, claro. Assim que foi possível reabrimos, para começar a trabalhar e pensei que ia ser pior, que ia haver menos gente. Ainda assim nota-se muito, o número de pessoas aqui baixou muito.

Que projetos é que tens para o futuro? Passam por crescer e aumentar o negócio ou passam por outro tipo de voos?

Sim! Gostava muito de evoluir este restaurante, ter um restaurante ainda mais conhecido, apesar de mesmo tendo aberto há tão pouco tempo já somos bastante conhecidos. Depois tenho aqueles sonhos que qualquer pessoa tem, como ter a minha casa, mas sobretudo manter-me aqui nesta zona.

Manteres-te aqui nesta zona é o teu principal foco?

Sim, porque gosto muito desta zona.

Sendo que tens dois filhos, sentes que o futuro deles também possa passar pela continuação deste negócio?

Penso que sim!

Gostavas?

Gostava, claro que sim. Por acaso gostava. (risos)

Vamos visitar a tua mesa para que descrevas também o que nos queres apresentar.

Aqui está o bacalhau com broa, que é um dos pratos de domingo. Ao domingo costumamos fazer a tal vitela assada no forno a lenha, que é carne arouquesa, o cozido à portuguesa, feito à moda tradicional, com todo o tipo de carne cozida e o bacalhau com broa. Ali temos uma entrada, um patê de alheira, que é coberto com queijo e vai ao forno dentro da broa. Depois há quem coma o patê com as tostas, ou quem vai partindo diretamente a broa e comendo. Foi uma invenção da minha mulher e as pessoas por acaso gostaram e aderiram.

É com estas pequenas invenções que vocês também têm cativado o vosso público, não é?

Exatamente.

E na hora das sobremesas, o que têm também de diferente?

Vamos variando. A minha mulher gosta muito de fazer sobremesas e vai variando. Uma que não é muito vulgar talvez seja a tentação de caramelo. Leva caramelo feito por ela - que quase parece doce de leite - no meio, depois leva nata com amendoim caramelizado com mel e canela e a parte de baixo é um pudim de caramelo.

Os olhos também comem, não é? (risos)

Também comem, exatamente!

Qual é o melhor elogio que vos podem dar no final de uma refeição?

É que adoraram! Se as pessoas disseram que estão satisfeitas e que estava tudo bom, para mim vale tanto como ter uma casa cheia. Mesmo que apenas tenha meia dúzia de pessoas, se elas disserem que gostaram, o nosso objetivo foi cumprido.

Gostas de viver no concelho de Castro Daire?

Adoro! Nem saio daqui!

Porquê? O que é que tem de especial para ti?

Eu sempre vivi em Castro Daire, tive apenas umas passagens pela Suíça quando era mais novo, mas sempre gostei de Castro Daire. Nem troco Castro Daire por nada!

Apesar de que fica muito longe, não é?

Sim...

Esta estrada prejudica-vos um bocadinho?

Se ela estivesse em melhor estado, talvez conseguisse mais clientes mesmo da vila de Castro Daire, mas vamos trabalhando com o que temos. Também vem gente da zona de Arouca e de Alvarenga, terras que são conhecidas pela carne e optam por vir aqui pela nossa qualidade. É claro que isso nos deixa contentes, porque não tínhamos fama nenhuma.

Vocês têm um bom casamento entre a gastronomia e o alojamento local. Acaba por um complementar o outro.

Sim! Exatamente. Temos ali a foz de Cabril que também nos traz gente, de Cinfães, do Porto e a nossa zona também tem muita gente que está a viver em Lisboa, que acaba por nos visitar.

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Ana Cardoso