GAPAFIT

13-02-2021

Para a maioria dos castrenses  são dispensadas apresentações, ainda assim, apresentamos-vos o João Pedro e Luís, dois amigos com uma missão: promover o bem-estar físico e psíquico das gentes de Castro Daire. Assim surge o Gapafit, o ginásio onde cada pessoa é importante e acaba por pertencer à família. Em tempos de pandemia procuraram fazer algo não só pelos seus, mas por todos aqueles que decidiram que a pandemia não iria ser um impedimento para um estilo de vida saudável. Empreendedores e sonhadores, mas com as suas raízes bem definidas. É assim que caracterizamos esta dupla que vos damos a conhecer.

O Luís e o João Pedro juntaram-se para este parceria que já dura há quantos anos?

Estamos juntos há nove anos.

Como é que nasce a ideia de um ginásio em Castro Daire?

Na altura, era uma lacuna. Já existia um ginásio, mas nós sentíamos que deveria existir outro ginásio, pois teríamos uma forma diferente de trabalhar. Sabíamos que o mundo estava cada vez mais a tornar-se ligado ao fitness, na saúde e no desporto, e nós, conhecedores da nossa sociedade - acabados de sair de uma licenciatura e a perceber as lacunas existentes, nomeadamente o medo de fazer desporto e ginásio, quer pelas limitações físicas, quer por vergonha do corpo ou não saber fazer - tentámos desmistificar, ser empreendedores e investir em algo em que nós acreditamos muito. Surgiu este projeto e estamos muito contentes com tudo até agora. Acreditamos que o caminho é este e queremos melhorar sempre mais.

Quando iniciaram, não foi nestas instalações. Foram percorrendo diferentes sítios e também crescendo, não é?

Sim. Nós iniciámos numas instalações mais pequenas. Foi uma excelente oportunidade de, sem grandes investimentos, começarmos a ver se era viável. Não estávamos à espera de que, de um momento para o outro, isto tivesse atingido as proporções que atingiu. O nosso ADN estava bem vincado desde início e foi por isso que no espaço de dois meses já contávamos com cem clientes. No final de um ano e meio tivemos de trocar de espaço e há cerca de dois anos, fruto dessa evolução contínua, tivemos de mudar novamente para outro espaço, onde estamos até agora, nas Piscinas Municipais de Castro Daire. Estamos super contentes aqui. O objetivo é evoluir e continuar a trabalhar.

Qual é o vosso público alvo? Quem é vos procura?

Todos. Mesmo todos. Neste momento estamos com uma turma em Vila Nova de Paiva, trabalhámos durante os meses mais quentes com crianças e jovens dos 5 aos 14 anos e temos um projeto "Envelhecer em Forma", com as mais séniores. Enquanto o tempo nos permitiu também tivemos um grupo de aulas outdoor, isto para também permitir que viessem ter connosco aquelas pessoas que não gostam de estar fechadas num ginásio. Estamos a trabalhar também com associações, no caso com a Associação de Lamelas, onde vamos dar aulas duas vezes por semana a um público diferente, que talvez goste mais de aulas e não tanto de ginásio e de um espaço mais deles. Acompanhamos pessoas que tiveram problemas de saúde e aí nós entramos no processo de recuperação. Temos clientes por motivos de saúde, perda de peso, aumento de peso... no fundo, todo o tipo de clientes.

Olhando para o negócio que foi obrigado a parar, como é que se reinventam neste pós-confinamento?

Isto foi um choque. Nós criámos uma primeira perspetiva acerca da Covid-19. Com a evolução desta realidade, fomos tendo uma melhor perceção do impacto que a nossa empresa poderia ter na sociedade. A mensagem que nós poderíamos passar às pessoas - fechámos portas ainda antes da DGS nos impor - era de exigir respeito para com a pandemia, mas nunca pensámos que durasse três meses. Vamo-nos reinventando, porque as necessidades assim o exigem. Foram três meses sem receber um cêntimo, a dar aulas online gratuitas, para ajudar ainda mais a comunidade. O agradecimento, por assim dizer, que nós pretendemos é que as pessoas se sintam fidelizadas para com o Gapafit. Tivemos pessoas a vir de Viseu de propósito para fazerem uma aula em jeito de agradecimento. Paralelamente a isso, queremos que as pessoas regressem quando permitido, sem medo, e essa é a maior prova de que confiam e acreditam em nós.

Olhando para a vossa pausa devido à pandemia, quando surgiu a oportunidade de abrir, vocês não hesitaram e tentar trazer as pessoas de volta para vocês, certo?

Assim que saiu a legislação, lembro-me que de um dia para o outro já tínhamos um projeto feito de forma a arrancarmos com as aulas outdoor. Quando demos conta já estávamos a lecionar cerca de cinco a seis horas de aulas por dia. Conseguimos não só fazer regressar clientes que já estavam connosco, como também conseguimos angariar novos clientes. Modéstia à parte, estivemos sempre em cima do acontecimento, começando logo pelo aluguer do material de ginásio.

Vocês além das aulas gratuitas que davam online, também promoviam conversas sobre os mais variados temas, como medicina, nutrição e finanças. Porque é que o Gapafit, sendo uma empresa privada, sentiu a necessidade de prestar serviço público?

Sentimos que temos impacto na sociedade Castrense. Da mesma forma que tivemos impacto ao fechar e passar a mensagem, faz parte de nós sentirmos as pessoas ocupadas e úteis. Nós queremos que Castro Daire seja bom para todos... Castro Daire e o país todo. Nós tivemos pessoas em Austrália e em Singapura a fazer as nossas aulas online. Temos mesmo um projeto para acompanhamento à distância, em que damos treinos e temos consultas de nutrição à distância, para quem, mesmo não estando cá, queira ser acompanhado por nós.

O vosso negócio, apesar de ter sede em Castro Daire, já saiu portas fora, não foi?

Sim. Sentimos que a determinada altura, e neste ramo, existia essa necessidade. O que acontece nas grandes cadeias de ginásio é que trabalham pelo número de clientes, o que acaba por fazer com que apenas façam um aluguer de máquinas. Nós aqui oferecemos uma família, um sítio onde as pessoas se sentem bem, têm qualidade no treino e no próprio planeamento dos treinos. É muito mais do que um aluguer de máquinas. Apesar de agora já não estarmos por lá, estivemos também em Oliveira de Frades durante cinco anos, onde fazíamos tudo o que fazemos no espaço de Castro Daire. Sentimos que as vilas necessitavam.

Quantas pessoas é que vocês têm na vossa empresa, a trabalhar convosco?

Contando connosco, somos 3 colaboradores.

Nesta fase em que tiveram de se reinventar, existiu algum medo da vossa parte ou até mesmo vontade de desistir?

Sim... Não foi tanto o querer desistir, mas talvez o medo de recomeçar. O nosso medo nunca era fechar. Nós conseguiríamos manter-nos sem receber ordenado durante dois ou três meses. O problema é que nós temos uma relação de amizade com todos os nossos colaboradores, então o medo era por aí. Questionávamo-nos se teríamos condições para ter pessoas a trabalhar connosco. Temos a sorte de ter essas pessoas fantásticas a trabalhar connosco que percebem os problemas e também se conseguem reinventar. Nós trabalhamos muito por objetivos. Se trabalhas mais, recebes mais. Esse tipo de pessoas não nos abandonaria durante uma pandemia, porque perceberia o nosso lado.

Olhando para Castro Daire e o seu comércio, como é que veem Castro Daire a nível de negócios?

João Pedro: Vou dar a minha sincera opinião enquanto castrense. Não está fácil para ninguém. Nós também o sentimos. Esta iniciativa da vossa parte é excelente. É excelente, mas não é suficiente. Devíamos comprar mais entre nós, mas os comerciantes também têm de fazer mais. A realidade online é uma realidade que tem de ser trabalhada. Não vamos ser hipócritas e dizer que não dá jeito entrar na internet e pesquisar, fazer as nossas compras e tirar mesmo dúvidas. São investimentos com retorno. Para nós era muito mais fácil não termos o site, porque requer trabalho e organização. Nós no site estamos a mostrar aquilo que fazemos. Temos de nos reinventar, com novas estratégias. Essas estratégias devem ser feitas, mas os comerciantes têm de se expor mais. Há muita malta que quer vir ao ginásio, mas que não vem por desleixo, mas se eu souber que eles querem vir, poderei fazer um trabalho na internet que vai entrar na cabeça deles e os vai fazer vir. Se não mostrarmos aquilo que temos, as pessoas vão a Viseu - e quem diz Viseu, diz Porto - comprar aquilo que há cá. Isto tanto porque não sabem que há cá, como por até terem vergonha de entrar numa loja e, por não gostar de nada, sair sem comprar.

Olhando para vocês, enquanto Luís e enquanto João Pedro, durante o confinamento, em que tiveram uns dias para refletir sobre a vossa vida quer pessoal, quer profissional, o que é que vos falta fazer e que querem fazer por vocês e para vocês nos próximos tempos?

Luís: A nível pessoal, percebi que tenho de acalmar um bocadinho a parte profissional (risos)! Percebi que, apesar de ter tempo para mais, trabalhava demais. Hoje, por exemplo, entrei às 8h30m e vou sair às 21h30m. Talvez tenha de tirar um bocadinho do meu dia para a minha família. Esse tempo só o tenho efetivamente durante a quarentena. A nível profissional, será nunca desistir.

João Pedro: O Luís falou muito bem. Eu também senti que não sou pessoa de estar sentado a ver televisão. Tenho de estar sempre a pensar em alguma coisa. Senti que se calhar devemos dar primazia a conhecer o nosso concelho e o nosso país. Já conheci vários países e estou sempre a pensar num país novo, mas talvez devesse acalmar e pensar mais em ficar cá. A nível pessoal, percebi - tal como o Luís disse - que é necessário valorizar mais as pessoas e dar-lhes mais atenção. Resumindo, trabalhamos muito e acabamos por não ter tempo para estar com aquelas pessoas mais próximas.

Vocês acham que é necessário mudar alguma coisa na nossa sociedade? O que acham que poderiam fazer para contribuir para essa mudança?

Luís: Então, nós somos uma formiga no meio disto tudo. Isto foi um reset geral no mundo. As pessoas perceberam que o dinheiro não é tudo. Nós aqui podemos e devemos ajudar as pessoas na sua saúde, não só a nível físico, mas também a nível psicológico. Com a pandemia, algumas pessoas caíram mesmo no fundo e será difícil tirá-las de lá. O nosso objetivo é esse, motivá-las e trazê-las de volta à vida com força.

João Pedro: A nível mundial tenho a opinião de que - espero não ser mal interpretado - estamos a viver à base dos extremismos, como é o caso das guerras políticas e económicas. Eu gostava de viver no meio termo, mas agora tudo o que se diga ou que se viva é um extremismo. Acho que o mundo vai voltar a ser mais equilibrado, mas para isso a educação atual tem de se focar mais nesse ponto, não incentivando aos extremismos. Muitos desses pensamentos extremistas não são verdadeiros e levam a que as pessoas se manifestem e tenham opiniões que nem sequer são fundamentadas... são "moda". Agora perguntas-me o que podemos fazer para mudar o mundo? Continuar a ser aquilo que nós somos, continuar a dar a nossa opinião e, como o Luís disse, ajudar essas pessoas que foram afetadas psicologicamente. Hoje em dia, a depressão - o não estar bem, o não conseguir dormir - é uma doença que não é moda e que realmente está a acontecer. Nós, enquanto ginásio, podemos ajudar. Tenho a certeza absoluta.

Castro Daire é um bom sítio para viver?

João Pedro: Eu sou um castrense orgulhoso. Em todos os sítios há coisas boas e más. No entanto, acho que aqui deveria haver menos inveja e mais união. Embora lá fora todos digamos com orgulho que somos de Castro Daire, no Algarve, por exemplo, cruzo-me com pessoas que aqui não me falam e lá damos abraços. O que eu quero dizer é que eu gosto de viver em Castro Daire, porque temos qualidade de vida, porque é uma vila com pessoas capazes e há muitas provas disso, mas acho que devíamos ser mais unidos, quer a nível de política, dos comerciantes ou até mesmo familiar e ter menos inveja. Essa união tornar-nos-ia melhores e mais fortes! (Dito em conjunto).

Luís: Eu não sou mesmo da vila, sou de perto, mas sou castrense. Há dois anos que moro aqui em Castro Daire e sou sincero: só trocarei Castro Daire se for mesmo obrigado. Tenho qualidade de vida, venho a pé para o trabalho, ... Em Castro Daire temos tudo e ainda mais coisas que não foram exploradas. Temos um bom rio, temos piscinas, temos tudo! Só precisamos de união. Precisamos de nos unir e trabalhar para isso, porque gosto mesmo de viver aqui.

Edição e Transcrição Ana Cardoso | Revisão e Publicação Lúcia Simões| Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira