ERVITAL

08-07-2020

 No Mezio, entrevistamos o Tiago Faifa, trabalhador na Ervital.  Um empresa de referência local não só pelo êxito no mercado, mas pelos valores que pratica e defende. 

" As infusões e condimentos biológicos produzidos na Ervital, são obtidos em condições ecológicas e ambientais únicas, proporcionadas pelo ecossistema de Montanha - Serra do Montemuro - Rede Natura 2000 - de elevada biodiversidade e utilizando as técnicas e processos preconizados pela agricultura biológica. Os campos de produção situam-se a cerca de 1000 metros de altitude, envolvidos por vegetação autóctone e sem áreas de cultivo a menos de 1 km de distância. 

A Ervital, ao longo dos anos, desenvolveu junto da população da Região do Montemuro acções de promoção da prática responsável da recolecção de algumas espécies como a carqueja, a urze ou a giesta. Nestes casos, além de não colocar em risco de extinção a espécie, representa uma prática que contribui para a minimização do flagelo dos incêndios. Com efeito, através da colheita de partes aéreas destas espécies, promove-se a redução da massa combustível disponível. "

in, Ervital


Como é que surgiu este negócio aqui no Mezio?

A Ervital é já uma empresa relativamente antiga, começou oficialmente em 1997, apesar das primeiras experiências com ervas aromáticas e medicinais ter começado em 1993.

Portanto temos já uma vasta experiência nesta área. Começou pela simples razão de haver na Serra do Montemuro e especialmente aqui no Mezio, uma instituição chamada ICA, Institution of Cultural Affairs, que recebia muitos voluntários de todo o mundo e que tinha como principal objetivo a dinamização de espaços rurais de países não muito desenvolvidos. Nos anos 90 o Montemuro não tinha a A24, e era de facto um sítio que era difícil chegar. Para chegar a Viseu demorávamos uma hora, para chegar daqui a Lisboa demorávamos cinco ou seis, portanto éramos um sitio isolado. E numa dessas visitas surgiu de facto a possibilidade de fazer algum tipo de produção com plantas aromáticas e medicinais, o aproveitamento de recursos endógenos como a carqueja, a urze, etc...Recebemos um senhor da Holanda que fazia importação de Hortelã Pimenta da China e fazia depois a distribuição na Europa. Essa foi a semente que levou a germinação de todo este projeto. Se os chineses podem fazer, nós aqui também podemos fazer então falou-se com esse senhor, e isso foi o início de todo este processo. Começamos com uma espécie, a Hortelã Pimenta e atualmente trabalhamos com mais de 100 referências diferentes desde infusões a condimentos sempre em produção biológica.

Depois da ideia de negócio, foi necessário realizá-la, apesar de terem a matéria prima tiveram de aprender a lidar como negócio?

Curiosamente nesse primeiro contacto com o senhor Holandês, apesar de ele ter concordado com todos os trâmites de negócio, aquando da produção da Hortelã Pimenta estar pronta a comercializar, ele alterou as condições e de facto não se realizou o negócio. A partir daí tivemos um grande problema, uma tonelada de Hortelã Pimenta sem comprador, portanto o que tivemos de fazer, foi pegar nessa produção e começar a vender pelo país todo. Percebemos que a Hortelã Pimenta era uma planta que tinha bastante interesse por parte das pessoas , mas não queriam apenas isso, queriam outras espécies e a partir daí também utilizando outros projetos e começamos a aumentar o numero de espécies, e fomos introduzindo algumas da flora autóctone, desde a camomila, etc,.. ou seja, espécies com muito potencial económico, e fomos de facto alargando a nossa gama. É um trabalho moroso, nós temos mais de 20 anos e ainda não nos consideramos um gigante desta área, mas é um trabalho que também que nos dá gozo desenvolver.

Se tivesse que destacar três coisas que mais gosta neste vosso mundo de ervas e afins, o que destacaria?

É uma pergunta difícil, mas possivelmente a qualidade de vida que temos a viver no campo, eu pessoalmente já vivi em Lisboa algum tempo acabei por depois regressar à Ervital. O facto também de conseguirmos trabalhar com um produto que as pessoas valorizam, que traz bem estar ás pessoas, que as ajuda a ter uma melhor qualidade de vida, nomeadamente na utilização dos condimentos para a redução do sal , na alimentação. E uma última... o facto de ajudar um bocadinho a preservação do meio ambiente. Infelizmente a nossa Serra do Montemuro, na minha opinião pessoal, podia estar um bocadinho melhor em termos de conservação e nós também temos muito esse cuidado no campo, de preservar ao máximo os carvalhos, uma espécie autóctone aqui da nossa região.

Sendo que a Ervital é uma empresa de referência, com prémios já também no mercado, há interesse dos mais jovens neste mundo das ervas e também neste registo que vocês têm?

Se somos uma referência, modéstia à parte, nesta área somos de facto uma referência, fomos praticamente a primeira empresa a aparecer neste sector em Portugal. Quando aparecemos, chamavam-nos até maluquinhos ou bruxos, porque a conotação que existia com as ervas aromáticas era de facto essa. Como o correr do tempo, sim somos uma referência. Primamos sempre por ter produtos de qualidade, nós não temos grandes produções em termos de área, nem de produção por quilo, mas temos produtos com qualidade. Nos últimos anos, devido a apoios da UE, há muitas empresas novas, jovens agricultores que se estão a instalar nesta área, da produção das aromáticas, essencialmente para fazer exportação, escolhem três ou quatro espécies e produzem três, quatro ou cinco hectares e fazem essencialmente exportação.

Esta empresa é uma empresa familiar?

Não é totalmente familiar, mas é gerida como uma empresa familiar, é composta por três sócios dois deles são irmãos, o Joaquim e o Delfim e um sócio que é estrangeiro, o John que é dos Estados Unidos, portanto é a única pessoa neste momento que trabalha na Ervital que não é proveniente do Mezio.

Vê-se aqui a geração seguinte a querer pegar neste negócio e levá-lo adiante?

É uma pergunta que teria de ser colocada aos sócios, mas dois deles (descendentes) são um bocadinho mais novos, outros estão a terminar ainda os estudos, mas é possível que isso aconteça, sim. A Ervital não vai morrer.

Qual é o perfil do vosso cliente?

Neste tipo de negócio existem dois tipos de cliente, as pessoas que procuram infusões porque faz bem a determinada finalidade, como dor de cabeça ou a má disposição... E há pessoas que procuram infusões porque de facto se sentem bem com elas, bebem uma infusão com quem bebe um bom vinho, pelo prazer. São mercados diferentes e o mercado que nós mais tentamos promover, é o segundo, ou seja, devido também à alta qualidade dos produtos que temos. As pessoas acabam por nos procurar também um bocadinho por isso e temos também um determinado número de misturas que levam a isso.

Quem quer comprar o vosso produto, pode comprá-lo como? Como fazem a distribuição do vosso produto, nacionalmente, internacionalmente, como é que fazem?

De forma mais local, aqui em Castro Daire, temos um sem fim de lojas que fazem a revenda dos nossos produtos em Castro Daire , e há também aqui no Mezio três sítios, um deles é aqui na Ervital, podem visitar-nos e fazer diretamente a aquisição. No resto do país, temos lojas espalhadas de norte a sul, as pessoas podem encontrar os nossos produtos essencialmente em lojas de produtos biológicos e produtos tradicionais. Trabalhamos com uma cadeia de várias lojas de produtos de agricultura biológica e é essencialmente aí que podem encontrar os nossos produtos. De forma Internacional nós não temos presença com a nossa marca no exterior, temos alguns clientes que nos compram os produtos porque de facto reconhecem qualidade, mas têm produtos de marca própria. Mas temos também o nosso site, e esse é um ponto transversal ao mundo inteiro, desde o local até ao outro lado do mundo, podem usar o nosso site para fazer a aquisição dos nossos produtos.

Temos esta pergunta que é chave para nós. Três coisas que gostaria de fazer brevemente por si e pelo planeta. Vou deixar que pense um bocadinho.

Não é uma pergunta fácil. Eu pessoalmente... Já tenho filhos e acho que era importante deixar um mundo melhor para os nossos filhos do que aquele que encontramos dos nossos pais, dos nossos avós. Há um ditado chinês que diz, o mundo é um lugar que os nossos avós nos emprestaram, pelos nossos filhos, e temos que cuidar dele. Acho que a questão ambiental, a agricultura biológica, o cuidado pelo ambiente. É muito importante que sejam revistos esses pontos e que tenhamos de futuro um maior cuidado com o meio ambiente. 

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Lúcia Simões