CELEIRO DO PÃO

19-09-2020

No Celeiro do Pão, entrevistamos o Sr. António, responsável por mais este negócio de família que tem por base o Grupo Lamelas.

Na entrevista notamos o que distingue este como um homem com sentido de comunidade, de visão estratégica,  com foco no cliente e nas suas necessidades, essas que ele sabe serem as oportunidades de negócio.  Este é um homem que aponta caminhos de futuro não só para si mas para o desenvolvimento de Castro Daire, vale a pena ler.

Como é que nasce este negócio? Já sei que é um negócio de família.

Este negócio surge numa empresa com já alguns anos de história, o Grupo Lamelas. A determinada altura surgiu a necessidade de criar este ponto de venda aqui no centro de Castro Daire. Procurámos criar uma imagem diferente e penso que fomos muito felizes. É um espaço muito agradável e não é um espaço muito grande, mas é um espaço acolhedor.

Para quem não conhece a vila de Castro Daire, onde é que fica o Celeiro do Pão?

O Celeiro do Pão fica aqui debaixo do Mercado Municipal, junto ao Jardim Municipal e também aqui no trajeto da EN2, que hoje em dia é muito falada. Está num ponto estratégico e de fácil encontro.

Começou a entrevista a fazer referência ao Grupo Lamelas. Vocês nascem no meio desta arte do fabrico do pão e de pastelaria, não é?

Para nós isto não é uma mera profissão. Eu entendo isto como uma arte. É um negócio que já teve origem nos meus pais. O Celeiro do Pão só existe deste 2012, mas enquanto fábrica estamos prestes a fazer já quarenta anos de existência, de história.

O que é que tem mais procura aqui na pastelaria?

Nós aqui tentamos ter sempre os produtos mais tradicionais, como o bolo podre de Castro Daire, a broa de milho, o pão de centeio, o pão da avó - que se vende muito bem - e outros não tão tradicionais que podem encontrar em outros locais também, mas tentamos inovar sempre. Tentamos trazer produtos novos, como as tortinhas do Montemuro ou umas queijadas típicas. Tentamos ir ao encontro ao que o cliente nos pede e surpreende-lo, como é o caso do bolo-rei de chocolate.

Tendo nascido neste mundo, quais são as principais razões que o fazem continuar nele? O que é que o cativa para continuar de portas abertas?

A minha paixão mesmo é "pôr a mão na massa", não é tanto a venda ao público, apesar de gostar de lidar com pessoas, de conhecer pessoas novas. Para mim o importante é criar bons momentos e boas sensações às pessoas. Acho que toda a gente que está na área alimentar partilha um bocadinho deste gosto. No fundo, quando nós lidamos com pastelaria, com restauração, temos de ter o gosto de proporcionar aos nossos clientes momentos únicos, momentos diferentes, porque só assim é que nos vamos destacar da concorrência. O que me motiva é gostar daquilo que faço, é gostar prestar um serviço bom, de qualidade, que é o que a vila precisa.

O que é que é preciso no comércio?

Eu não gosto de me focar naquilo que está mal. Prefiro focar-me naquilo que está bem e tentar que as coisas fiquem ainda melhores.

Assim sendo, o que é que podemos melhorar?

Podemos fazer aquilo que vocês estão a fazer, divulgar. Num momento que é difícil para todos, existir alguém que não pense só em si, mas que também pense nos outros é bastante importante e todos os comerciantes devem apadrinhar estas iniciativas. No fundo, todos fazemos parte da vila. Se todos remarmos no mesmo sentido, seguimos em frente e isto melhorará. Se mais não fizermos, pelo menos devemos participar nas iniciativas que outros têm.

Sr. António, a nível de negócios tivemos alguns obstáculos, num ano que parecia ser bastante produtivo. Como estava o negócio antes e como se prepararam e estão a viver este ano atípico?

Com muita preocupação. Digo muitas vezes que estou mal, como todos estamos, mas enquanto houver saúde já é muito bom. Dentro das dificuldades, há uma necessidade mais forte de acompanhar o negócio, de ver o desenvolvimento das coisas e de, sobretudo, estarmos presentes. Não está a ser, nem será fácil para ninguém, mas penso que com um bocadinho de paciência, com vontade, com esperança, tudo ficará melhor. Tenho, neste momento, vinte e seis colaboradores comigo e eu não posso pensar simplesmente numa perspectiva de negócio, em lucro. Tenho de pensar nesses postos de trabalho e no facto de os querer manter. Isso só é possível com muita conversa com eles e um acompanhamento diário tanto a eles como aos clientes, que eles próprios têm muitos receios. Se nós estivermos no sítio certo e no momento certo para esclarecer essas dúvidas e esse receio, penso que conseguiremos ultrapassar este momento menos bom.

No vosso caso, não tiveram de fechar, uma vez que o vosso serviço é de primeira necessidade. Contudo, durante o estado de pandemia, com tudo mais calmo, deu para pensar naquilo que ainda não fez por si e que gostaria de fazer?

Nós efetivamente não estivemos fechados, mas também não foi fácil lidarmos com os nossos medos, principalmente os nossos funcionários, que tinham contato direto com o público todos os dias. Foi preciso coragem para todos os que tiveram de fechar, mas também para todos aqueles que continuaram abertos. O que eu percebi foi que o meu serviço é de notoriedade pública. Existem pessoas em determinadas aldeias do concelho que se não receberem a visita do padeiro, não vêem mais ninguém durante o dia. Elas têm necessidade do nosso abastecimento e do nosso contacto. Se eu olhasse apenas para o lucro, é óbvio que não iria a essas aldeias. Eu sinto que tenho um dever para com elas. Relativamente à sua pergunta, sou uma pessoa extremamente agradecida. Tenho planos para a minha família, para os meus filhos, mas tenho receio por eles, pelo dia de amanhã dos meus filhos. Os meus planos e objetivos, se não forem cumpridos não tem problema. Já cumpri muitos que queria cumprir. Tenho quarenta e cinco anos e é óbvio que tenho alguns sonhos que ainda gostaria de concretizar, mas quando nós temos filhos, a nossa preocupação é outra. Deixamos de pensar nos nossos objetivos, nas nossas ambições, para pensar neles.

É bom viver em Castro Daire?

Eu gosto. Já tive várias oportunidades de mudar o meu negócio para fora de Castro Daire mas tenho-me mantido por cá, porque efetivamente gosto de viver aqui. Gosto de ter o meu negócio em Castro Daire porque gosto das pessoas de Castro Daire. Visito o país de norte a sul de mota e ainda não houve até hoje um sítio que me fizesse querer sair de Castro Daire. Nós damos muito valor às coisas quando não as temos e nós aqui estamos próximos de tudo, para o bem e para o mal. Se nós formos criativos e perspicazes, conseguimos trazer muita gente de fora, porque tal como estamos perto dos outros, também eles estão perto de nós. Temos é de criar condições para que eles venham até nós. Se não formos atrativos e não soubermos seduzir, elas também saem de cá para outro lado. Falando no nosso modo de vida, é ótimo, porque tanto podemos estar cá, como facilmente nos conseguimos deslocar até uma grande cidade. Estamos bem localizados e temos tudo aquilo que é necessário para termos qualidade de vida e podermos dar excelentes condições a quem nos visita.

Sendo que este negócio já nasceu dos seus pais, acha que os seus filhos darão continuidade a esta bonita história aqui no comércio de Castro Daire?

Será como eles entenderem. Eu não os influencio para isso. A única forma através da qual indiretamente os influencio é a mesma que utilizo com os meus clientes, mostrando trabalho, dinâmica e novidades no negócio. Antes, gostaria que eles tivessem uma formação, outra capacidade que quando eu comecei não tinha. Tanto um como o outro se mostram interessados no negócio e na arte, o que para mim é uma grande felicidade. O futuro o dirá. Se eles assim o entenderem, cá estarei para os ajudar.

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Ana Cardoso