CAPUCHINHAS

10-07-2020

A Serra é lugar de resiliência. Ao tempo, à temperatura, à espera, à saudade, ao medo, à incerteza dos dias, que variam entre a  esperança e fé  em dias de sorte, e resignação aos dias maus.

Por lá, ainda se congela a água nos canos em dias de neve, a internet ainda falha constantemente, e a rede de telemóvel teima em não dar sinal, contam-nos. 

Mas há lenha todo o Inverno, calor da família e dos amigos, casinhas arranjadas, com zelo e orgulho e uma comunidade que cuida, uns dos outros, das ruas,  dos montes e dos animais, cujo nome próprio todos sabem, como almas a ter em conta. Em Campo Benfeito, zela-se pelo belo, pela arte, pelo amor. 

Que se aprenda com esta aldeia, a fazer-se sempre melhor, com o coração no lugar certo. 

Ester, dá a voz a este projecto, As Capuchinhas, que tal como o Teatro Regional da Serra do Montemuro, são a alma e excepcionalidade desta aldeia tão orgulhosamente singular e nossa.

 

Como começou o negócio para as Capuchinhas?

Nós éramos muitos jovens. Eu sou uma das do início da atividade, há mais ou menos 32 anos. O objetivo foi nós aprendermos uma arte e começamos por aprender. Houve aqui uma formação neste espaço da escola primária, de corte e costura. Nessa altura depois através da formação houve a visita da Comissão da Condição Feminina CCF depois houve de outros projetos e então lançaram a ideia: porque não nós? Porque estamos na nossa aldeia e no nosso local, porque não aproveitarmos um pouco daquilo que existia?

Porque as mulheres antigamente eram um bocadinho postas "de lado" porque eram domésticas, mas faziam tudo! Era a casa, era o campo, mas não tinham um salário, só se fossem para o Douro apanhar fruto. E aqui acontecia o mesmo que no geral das aldeias. E como eu e mais a minha colega Henriqueta, que estamos desde o início, tínhamos sempre aquela ideia que gostávamos de ficar cá... eu não queria ir para outra cidade. 

E foi pegar um pouco nas nossas raízes e com apoio também de técnicos profissionais, como na arte de design, como na comercialização de produção, tudo isso ajudou-nos a pensar e elaborar. E foi nessa formação que tivemos no Porto, na altura fui eu e a Henriqueta e uma outra moça que também fazia e a monitora de costura que era daqui da aldeia. Fomos as quatro para o Porto e fizemos essa formação. O que nós tiramos de lá, de inspiração, foi o facto de pegar na matéria prima que não era novidade nós. Sempre vimos os nossos pais, a lide das nossas mães, principalmente a lidarem com o Burel, com os linhos, com a tecelagem e foi por isso que nós pedimos às nossas mães para nos virem ajudar e começamos a elaborar peças já um pouco com o corte mais moderno, que fossem atuais para as pessoas poderem usar. Porque mesmo no início nós até fizemos um fatinho de velhinha, que era um traje tradicional para os ranchos e os cantares mas depois pensamos: "isto assim...nós não vamos a lado nenhum. Nós temos que que agarrar outro tipo de cliente". E foi isso que aconteceu nós começamos a modernizar as peças e para isso tivemos ajuda constante durante 5 anos, da Helena Cardoso, que era do Porto, que nos ajudou nessa parte de Design e que elaborava as peças juntamente com as tecedeiras, e  com aquilo que nós queríamos e que pensamos. E foi aí, que começou a nascer um bocadinho a inspiração. 

Nós vemos hoje mais fundo, os nossos montes, as nossas paredes, a pedra, as peças antigas do tear como os tapetes, com as mantas e é essa a inspiração que agora temos,  esse fundo como base para nós nos orientarmos sempre a dar a nova imagem à coleção.

Nós temos aqui uma empresa familiar, não é?

Sim, eu aqui tenho duas cunhadas, e a outra colega é irmã de uma das minhas cunhadas, portanto somos todas família. Sou eu, a Ester, a Engrácia, que é minha cunhada, a Isabel e depois a Henriqueta é irmã da Engrácia portanto somos uma pequena família, porque agora só temos quatro a trabalhar a tempo inteiro mas já fomos mais, mas por motivos de saúde... Porque já cá estiveram as nossas mães, infelizmente só estamos as quatro mas também nos tempos que correm não só com esta situação de momento, mas já se vinha a sentir alguma quebra de negócio, que eu penso que é um bocadinho no geral não é? E é verdade que isto para nós as quatro é o suficiente, em alturas de grande trabalho como por exemplo a partir de agora, desta altura até mais ou menos dezembro.

Depois pára um bocadinho?

No mês de janeiro, fevereiro, março, abril é aqueles meses que nem se compra coisas de inverno, porque o inverno já está assim naquela... que já não convém comprar porque já se fez um investimento antes, e o verão também ainda é muito cedo e é nessa altura nestas datas que aproveitamos para fazer as coleções.

Têm alguém da vossa família que queira seguir os vossos passos e continuar com este projeto?

É assim, eu tenho dois rapazes. Não estou a ver muito a virem ser tecelões ou alfaiates, mas é assim, eles gostam de trabalho que a mãe faz, gostam, apreciam e valorizam. As minhas colegas algumas tem miúdas e algumas dão muito valor e adoram estas coisas, mas é verdade que às vezes pensamos assim: nós queremos? Nós sabemos aquilo que estamos a passar e que sempre passamos, já lá vão 32 anos, já é uma vida, desde o início que as Capuchinhas existem. Mas é verdade que nós, se calhar, queremos um bocadinho mais para os nossos filhos, ou seja se os meus filhos tirassem uma parte nem que fosse de apoio... É que nós, na verdade nós sentimos é a falta de apoio. E agora no momento até temos uma sobrinha minha a ajudar-nos na parte de publicidade. Porque nós, nós fazemos aquilo que somos capazes e que nos sentimos seguras e que até sentimos que somos profissionais na arte de tecer, de confecionar, mas da parte de estar atrás de um computador a fazer aquela parte que é cada vez mais importante, nos tempos que decorrem, que é publicidade, estar sempre atual, estar sempre a comunicar com o novo cliente que possa existir, isso é o que nos falta um bocadinho, e é verdade que agora uma sobrinha nossa disponibilizou-se para nos ajudar, ela até vive em Lisboa, mas ajuda-nos. 

Aqui para agarrar isto a fundo? É assim, nós temos esse objectivo, porque os anos vão passando e nós pensamos nisso, agora começamos a pensar. Queríamos jovens e gostávamos que, nem que não fossem os nossos, que se interessassem por esta arte.

Há esse interesse por parte dos mais jovens, para esta arte?

Há algum sim. Há alguns que têm esse interesse, mas depois também aqueles que pensam assim: "poças isto dá tanto trabalho". Porque é verdade dá, muito trabalho e às vezes a recompensa não é aquela que se espera, mas é a que pode ser. E isto hoje em dia, vá na minha altura também, os jovens gostavam das coisas mais fáceis e...

Não há uma demonstração, eles não se mostram interessados em aprender a arte ou só mesmo só passar, ver e andar?

Nós temos alguns jovens que vem aqui de visita e que nos fazem essa pergunta, dizer: "vocês ensinam a tecer?". A arte de tecelagem é uma arte que é muito bonita. Que para ser uma costureira, qualquer pessoa sabe dar um arranjinho agora a arte de tecer é preciso ser mesmo profissional e que goste, porque desde o início até ao fim, desde o tecer a peça, depois até ser confecionada e depois de confecionada ver obra feita, é preciso ter mesmo gosto e dedicação, é preciso estar mesmo com aquela vontade. E isso demora algum tempo, mas eu penso que também em qualquer profissão, para a gente ficar mais ou menos confiante e profissional, exige à gente, que se aplique. É assim, eu sinto-me agora segura a confecionar uma peça, mas no início, até talhar a peça, estava sempre assim: "Será que vai correr bem? Será que não vai?". Porque é natural, é uma insegurança do início de qualquer profissão. 

Mas a gente está esperançosa que mesmo que não sejam os nossos familiares directos, que possa existir alguém da cidade. Acho que a arte torna-se ainda mais valorizada quando é de um meio assim mais despovoado, enriquece. Nós sentimos isso, nós que vivemos cá sentimos que as pessoas de fora, apreciam cada vez mais a arte, pelo facto de haver gente que ainda consegue resistir às tempestades aqui das aldeias, que ficam tão despovoadas, porque há poucos jovens, os velhinhos começam a acabar e nós necessitamos disso, precisamos de gente nova. E temos sempre essa esperança e há-de de acontecer, comece a haver uma nova renovação porque nós já estamos a ficar naquela metade da idade.

Olhe, vejo de fato muita emoção nas suas palavras e vejo os seus olhos aí também um bocadinho emocionados porque realmente está a falar de algo que lhe diz muito. Em três palavras como que você define esta profissão? Quais são as três coisas que você mais gosta nesta profissão? Se calhar é pergunta mais correta. Que três coisas mais feliz deixam nesta profissão?

Três palavras, é difícil eu gosto mais de frases! Eu quando comecei muito jovem, não tinha a noção daquilo que na realidade, quando somos jovens não pensamos que somos capazes: "Isto não vai dar nada". Mas quando vemos que ao longo destes 30 anos de trabalho e dedicação, de amor à arte, de valorização, que as pessoas valorizam muito nosso trabalho, aquelas que apreciam mesmo esta arte, eu só tenho mesmo a agradecer a mim e às minhas colegas o facto de existirmos, de batalharmos porque isto é uma luta, o nosso trabalho é uma luta, é uma dedicação e é um amor à arte que nós fazemos.

Melhor descrição era impossível. Agora também para um bom negócio funcionar precisamos de clientes. Qual é o perfil do vosso cliente?

O perfil do nosso cliente, primeiro tem que gostar mesmo do que é. Nós como sabemos que por exemplo a lã pica porque é lã de ovelha, não é uma lã fofinha, só depois de usar, então tem de usar uma camisolinha interior, alguma base por baixo para se adaptar. É claro que por exemplo o burel já é mais fácil porque nós já trazemos uma camisola por baixo já é mais fácil. O linho acontece a mesma coisa, há pessoas que que acham que o linho até é fresquinho, mas também tem aquele ar um bocadinho, às vezes rude. Por mais que seja o fio muito certinho,  mas é verdade que mesmo assim, há pessoas alérgicas, preferem o algodão porque é mais macio, mesmo assim, o linho só se torna mais macio depois de ser muito usado, ser bastante lavado e que vai perdendo aquele toque natural do linho e a lã é mesma coisa. Só depois de muito usado o Burel acama e ganha a forma do nosso corpo e a gente sente-se mais confortável a usar as peças. Mas as pessoas que gostam, não se sentem incomodadas em usar este tipo de peças mais rudes, pode-se chamar esse nome, mas ao mesmo tempo... para nós fazermos estas peças... não são caras, tem um certo valor que infelizmente , eu digo infelizmente porque isto toca a todos, nem toda a gente pode comprar as nossas peças. Mas é verdade que aquelas pessoas que têm uma condição mais ou menos razoável podem e são peças que duram muito tempo, temos alguns clientes que dizem: "Eu prefiro ter meia dúzia de peças no meu roupeiro do que ter uma data delas e só usar uma vez ou outra e quando tal já estão tortas, já estão pingonas". E isso nós sabemos que é verdade que as nossas peças duram muito tempo, mas para isso também tem que haver alguma disponibilidade económica para comprar o nosso produto.

É mais vendido a nível nacional ou internacional? Sabendo eu que vocês também já têm ido para feiras internacionais essas feiras também já abriram mercado mais internacional? Vocês, vendem mais nacionalmente? Como funciona?

Continuamos a bater o record a nível nacional. É assim, nós fomos uma única vez para o estrangeiro, fomos o ano passado foi é verdade, com a ajuda da câmara, que nós como grupo pedimos não só para nós, mas para outros grupos do Concelho. Nós íamos, e cada um pagava a sua parte, e a câmara ajudou no espaço que era o montante mais elevado. Só fomos nós as Capuchinhas, mas é assim foi uma experiência nova, porque na realidade nós nunca tínhamos ido para um país estrangeiro, levamos uma filha, a filha da Henriqueta. Foram as duas, porque é verdade que o falar a língua, porque depois eles lá, o inglês para eles não diz muito, eles são italianos, são italianos, é o italiano que fala, não é o inglês. Eles valorizam muito a língua deles e falam mesmo italiano. A Rita foi com a mãe e há este espírito mais novo que até isso chama clientes...

Correu bem, portanto.

Correu, porque dentro das expectativas, é assim, se calhar estávamos à espera de um pouco mais! Mas se calhar para um primeiro ano, que foi que nós dissemos, aquela feira funciona muito... é como irmos ao Parque das Nações, nós vamos já há uma data de anos. Nós temos clientes há muitos anos, e esses clientes é que comunicam a outras pessoas para nos irem visitar. Portanto há uma divulgação de pessoas e ali foi o primeiro ano, e das pessoas que nos compraram e que encomendaram, que ainda tivemos encomendas, as pessoas gostaram muito e valorizaram muito. Mas também foi uma altura que as pessoas estavam mal, como nós por aqui em Portugal! E então estavam sempre a pensar no valor, e isto e aquilo, mas depois de uma breve explicação de como era feito, todo o processo, as pessoas acabam por perceber porquê o valor daquele produto.

Três coisas que quer fazer brevemente por si ou pelo planeta

Por mim? Pois se calhar, pensar mais um bocadinho em mim, isso é uma das coisas. Que eu às vezes foco-me um bocadinho no trabalho! É importante! É um projeto de raiz! E que me diz muito, porque eu estou cá desde os 17 anos. Legalizei-me aos 18... Eu gosto daquilo que faço, valorizo aquilo que faço, sou recompensada pelos clientes que me compram os produtos e que falam da nossa arte, mas é verdade que às vezes a gente para conseguir, dá muitas horas extras. E depois os anos começam a passar e a gente diz assim. "Bem, se calhar foi alguma coisita para trás". Mas não, eu acho que tenho a recompensa dos filhos, do marido, da aldeia, o resto vem um bocadinho por acréscimo. A gente vai levando a vida e logo que haja saúde é o que interessa, e o resto vai vindo. Mas ao mesmo tempo, eu acho que não deixei assim grande... não sei... é assim, eu foco-me naquilo e acho que a gente não deve estar a pensar naquilo que não fez. O passado é o passado, o que interessa é o presente e futuro e, é isso que eu penso!


Portanto para já, a prioridade é pensar em si.

Em mim, neste sentido, que quero dar o meu melhor. Não é dizer assim, eu quero pensar em mim, mim. É naquilo que me rodeia e isso engloba tudo, desde a família, desde o trabalho, desde o meu bem-estar, porque se eu estiver bem, o resto, o resto está com toda a certeza! E eu sou bastante positiva sou muito, acho-me assim alegre,  bastante dinâmica e eu gosto de me sentir...gosto de estar feliz! Com esta situação, a gente foi assim um bocadinho mais abaixo, ficou mais tristonha, porque eu não gostei nada da experiência de estar a trabalhar em casa. Não gostei! É assim, a gente tem que separar as coisas, em casa ou sou artesã ou sou doméstica. E em casa eu era tudo! E depois o filho a estudar, não é! Porque é verdade! Eu gosto mais desta situação. Eu separo as coisas, quando é em casa, é em casa, quando é família, é família, quando é aqui... Gosto mais neste momento, mesmo que a gente às vezes tenha que usar a máscara ou não! 

É assim, a gente tem que "botar" para a frente, estar com consciência daquilo com responsabilidade, mas ser lutadora, que  isso é o que nós fomos sempre, lutadoras no geral todas fomos lutadoras, por resistir, sermos jovens e lutarmos por aquilo que queríamos, porque aquilo que queríamos era nosso! O nosso emprego, temos a nossa independência, e estamos a fazer aquilo que gostamos! 

E é isso que no geral, eu falo por mim, que é isso que eu consegui e eu penso que os meus filhos, eu falo pela minha família, acho que eles estão... gostam daquilo pela atitude que eu tenho, e no geral é as minhas colegas também, porque se a gente não estivesse bem... nós de certa maneira, nada nos prende. Uma pessoa, está bem que este projeto é de todas, é uma cooperativa, somos quatro a trabalhar a tempo inteiro, há mais duas sócias, mas ao mesmo tempo, é assim, nada nos prende. E nós continuamos a lutar, por que é isto que nós queremos! É isto que queremos dar continuidade, alguém que vá aparecendo, mais jovem, que queira experiências novas e é isso que nós queremos.

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Mónica Martinho