COOPERATIVA DE ARTESÃOS DO MONTEMURO

02-07-2020

No que vulgarmente é tratado por Artesanato do Mezio, encontramos a Cooperativa de Artesãos do Montemuro. Oficializada em 1981, juntamente com a Associação Etnográfica do Montemuro,  as duas entidades acolhem desde essa data todos os turistas da Nacional nº2. Seja pela curiosidade pelo artesanato, ou pela procura gastronómica do restaurante típico mesmo ao lado, poucos resistem ao acolhimento que se sente da estrada.

"As suas fundadoras, professora Dolores e Ana e as doutoras Mariasinha e Celina, tinham como objectivo preservar e dar a conhecer o modo de vida tradicional, o quotidiano dos camponeses e pastores que chegam até hoje. Ali podemos encontrar em exposição a olaria (barro preto), cestaria em palha e silva, tecelagem de trapos, colchas de cama em lã, burel (capuchas e outros vestuários), o linho e todo o seu ciclo (nesta instituição existe o único pisão da região), os tamancos entre outros. No entanto não se trata somente de exposição mas também há oficinas onde são elaborados todos os artefactos que se encontram expostos e que se podem adquirir." União de Freguesias de Mezio e Moura Morta.

Na Cooperativa dos Artesãos de Montemuro a conversa foi com a Dona Lurdes.


Como é que surge este negócio, aqui na aldeia do Mezio?

Nós temos aqui duas entidades fundadas pela saudosa Professora Dolores de Jesus, e houve uma colega dela que era professora do magistério primário que pediu um determinado trabalho aos seus alunos. Acontece que eles tiveram algumas dificuldades em fazer esse trabalho, um trabalho ligado à etnografia, uma vez que as coisas estavam a desaparecer. Então ela disse-lhes: "vão ter com a minha colega Dolores, ao Mezio que ela pode ajudar-vos". Mediante algumas dificuldades,  foi um despertar de consciências, porque ela começou a ver que realmente havia coisas que se estavam a perder,  então começou a deitar mão: "Temos de fazer alguma coisa", isto já em 1979, que foi quando começou então este trabalho de recolha. Em 1981 foi então fundada a Associação Etnográfica e logo de seguida, pouquinhos dias depois, a Cooperativa dos Artesãos de Montemuro. 

Qual é o objectivo destas duas instituições? 

Estamos sempre ligados inclusive o edifício é o mesmo. O objectivo é mesmo, a preservação do património cultural e da gastronomia também. Fixar pessoas, porque também há uns anos quando ouvíamos dizer "Fulano vai-se casar" era sinónimo de fuga, sabíamos que a pessoa ia sair daqui porque aqui não tinha condições para viver, por isso além dessa preservação era fixar as pessoas aqui e ajudar a que elas pudessem viver um pouco melhor.

Mas havia quem conhecesse esta arte?

Havia quem conhecesse essa arte sim, eu própria vim para aqui em 1985 e ainda andava a perguntar "Ó Ti Manel, como se faz isso, ó Ti Maria", nós aqui somos todos tios, "Como é que se faz isto, como é que se fazia aquilo, para que servia isto, para que servia aquilo", ou seja, eu acabei por fazer ainda um bocadinho de trabalho de recolha, porque se não, não chegaríamos a lado nenhum.

Quais as três coisas que mais gosta nesta arte?

Três coisas... Eu não posso escolher, eu não me vejo a fazer outra coisa, é isso é! Que eu não me vejo a fazer outra coisa, adoro isto, é as coisinhas a sair-nos da mão, é o contacto com as pessoas, a troca de impressões, eu não me vejo a fazer outra coisa (risos).

E os jovens, como vêm esta arte, há interesse em aprender, ou conhecer pelo menos?

Sim. Agora já há. Quando isto começou isto era para velhos, não era para novos, isto era uma arte de velhos, isto eram peças que não lhes diziam nada, e hoje, a nossa casa tem muitos jovens e normalmente os primeiros produtos que saem são para o pessoal da casa, porque eles gostam e dizem "Olha, esta fica para mim" "Esta já fica reservada", houve um despertar mesmo muito grande na juventude e nós somos uma "casa aberta". Recebemos visitas de estudo... As pessoas começam a aperceber-se a e valorizar determinadas coisas.

No fundo é essa passagem que vocês querem deixar para as gerações?

Para as gerações futuras, exatamente! Porque senão não valia a pena, porque neste momento, sou honesta, as coisas são muito apreciadas, muito bonitas, mas não há poder de compra, eu não sei quando é que nós vamos voltar e nessa situação... Se não estivéssemos a pensar um bocadinho nisso então não valeria a pena darmos continuidade, o Covid veio estragar tudo! Havemos de retomar.

Mas este negócio tem futuro nas novas gerações, vê que no futuro as novas gerações vão pegar nisto e não vão deixar morrer este tipo de negócio?

Eu espero que sim. Se houver visitantes, se houver clientes, pois com certeza, mas lá está, para isso têm de vir pessoas de fora, pois nós não produzimos para a comunidade.

Mas os vossos jovens aqui, mostram interesse em trabalhar nesta arte?

Já tivemos mais gente a trabalhar nesta arte e jovens quase crianças, agora neste momento, mediante as burocracias, nem toda a gente, porque para fazerem têm de estar coletados, e isso acaba por matar um bocadinho este gosto e esta forma, porque se não estiverem coletados não podem trabalhar. Ora é lógico que não podemos empregar aqui toda a gente, porque há actividades em que a pessoa não produziria nem para os descontos da segurança social, quanto mais para um ordenado.

Qual é o vosso cliente alvo, aquele cliente que realmente compra sempre este tipo de produto?

Se me vai perguntar se são do estrangeiro, não, esses normalmente vêm, e querem levar os presentes na ida, e então vêm cá. São mais as pessoas do país que aproveitam um fim de semana longo, ou as férias, e mesmo já nos conhecem e pedem que lhes enviemos, via correio, quando já conhecem, que lhes enviemos as peças, mas vivemos mais com os nossos portugueses, sim. Há um aniversário, há os presentes de Natal, os folares de Páscoa e para si próprias, há coisas que  gostam de mudar. Nós também temos um leque muito variado, fazemos cortinas por medida, há sempre aquelas coisas que no dia a dia precisamos nas nossas casas.

Mas é um mercado que também gostariam de ver aberto, o mercado internacional? Ou acham que não está ainda sensibilizado este mercado para este tipo e produto?

Claro que gostaríamos de ver aberto, se bem que há muita burocracia , lá está as burocracias travam-nos sempre, muita burocracia para entrar no estrangeiro. Se bem que nós já tivemos vários clientes estrangeiros, inclusive neste momento ainda temos uns japoneses, mas vêm eles próprios, adquirem aquilo que realmente lhes interessa, para nós foi uma venda e acabou. Para nós enviarmos, são precisas licenças e uma série de coisas e também temos de ter certezas de que o produto vai sair e que vai chegar ao destino.

Para finalizar, quais as  três coisas que gostaria de fazer brevemente por si ou pelo planeta?

Tendo em conta aqui a nossa situação, nós já cuidamos bem o planeta, não temos aqui nada que polua, é tudo manual mesmo, não temos máquinas, não temos químicos, não temos rigorosamente nada. O que eu gostaria de fazer...Neste momento é uma tristeza, mas não há qualquer tipo de transporte Viseu/Lamego, por exemplo. As pessoas são obrigadas a sair, um leva o carro o outro leva o carro, outro não sei o quê... e há aí uma poluição enorme, como vemos, porque claro um carro só leva umas quantas pessoas enquanto que assim cada um vai no sei carro. É uma das coisas que me preocupa neste momento e se pudesse colocava o transporte colectivo porque acho que ajuda, se bem que nós aqui ainda respiramos ar puro, mesmo assim, respiramos ar puro.

No Mezio, respiramos e respira-se ar puro.

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição Mónica Martinho

Cooperativa de Artesãos do Montemuro - Mezio
Tecelagem em lã e linho, Trapologia, Miniaturas em madeira, Bonecas com trajes regionais, Cestaria, Rendas e Bordados
Estrada Nacional 2
3600-402 Mezio CDR
T: (+351) 254 689 815
@: coop.art.montemuro@gmail.com