ALBERTO PINTO

04-08-2020

O Alberto Pinto, é o que defende, simplicidade. Vive na aldeia onde nasceu, depois de experimentar outras paragens. Mas as ligações com a terra, com a agricultura e os seus materiais, com o rio e os seus peixes, a paisagem e os seus materiais, fixaram-no no seu meio mais natural e que o faz feliz, o Vale do Paiva, Folgosa.

Das raízes e de galhos torcidos nascem personagens, histórias e História que se conta pela réplica.

Que se cuide e incentive, que se documente. Enquanto se contem usos e costumes em coisas, ainda que miniaturas, faz-se Património material, últimas peças, da nossa humilde e rural História. Bem-haja a este guardião de saberes.

Como nasce este gosto por mexer, na madeira, na palha? O que mais trabalha?

O nascer da Arte aconteceu, pela brincadeira e pela consistência.

Uma vez por acaso encontrei-me com o Sr. Professor Abílio Pereira de Carvalho no Museu Municipal, e ele disse-me: "Então Sr. Alberto, você foi meu aluno, faltam 20 dias para a feira de Castro Daire, a Festa das colheitas, porque é que em vez de dar a outros, não faz e vai à feira e ganha o que conseguir ganhar?" E então empenhei-me, fiz umas colheres umas canecas e mais umas tralhas e fui e correu mais ou menos...

Sr. Alberto, nasceu consigo este gosto, já fazia de vez em quando, como isto aparece?

Eu comecei quando tinha 8 ou 9 anos, a fazer um peões, umas colheres, umas brincadeiras, só depois fui para a França passados uns anos, para a apanha do morango , para a "Campanha" e tive muitas horas vagas, e lá como ficávamos por casa, preenchia o tempo a fazer umas brincadeiras, umas colheres de pau, a ir à pesca, e por aí fora, e começou daí.

Então cada peça que tem aqui, foi criada pelas suas mãos, não aprendeu com ninguém, foi aperfeiçoando a arte?

Sim, peça a peça, pouco a pouco...

E das peças todas que tem, sei que faz por exemplo Presépios, temos aqui muitos materiais que descrevem Castro Daire, como os Espigueiros, não é?

Sim isto é um canastro à moda antiga, antigamente faziam em xisto, umas articuladas em várias peças outras em duas peças, como ainda se vê em Meã e Parada, há peças de canastros só com duas peças uma de cada lado.

Temos o Carro de Bois também?

Havia dois sistemas,  o carro que levava o estrume para a terras, e havia outro que transportava a terra ou as batatas, que tinha de ser mais fechado para não verter as coisas, isto chama-e um "Jinço"*(palavra para Sebe de vime, que o Alberto ouviu em terras que não as do concelho de Castro Daire), e o que é feito em tábuas, "Sebe" **

O que mais gosta nesta Arte?

O que eu mais gosto, é ser uma Arte espontânea... por exemplo, fazer Presépios, é pegar num pau e numa navalha e fazer disto que está aqui, fazer um boneco, uma boneca, uma escultura.

Qual foi a peça que lhe deu mais horas de trabalho?

Um São José... que está um bocadinho gordo de cara (risos). Fiz na Feira das Colheitas de Castro Daire, ao vivo... e outros por aí...

Na família tem alguém que goste desta arte que queira aprender?

Não sinto muito. Tenho um filho que gostava um bocadinho e acho que ainda gosta, mas para já não pode porque está impossibilitado, por motivos de saúde, mas pode ser que um dia quem sabe, eu penso que sim... quero que sim.

Como está o apoio aos artesãos em Castro Daire, sente que são apoiados?

Isto é assim: está uma vergonha... Porque não temos apoios...

Como faz para escoar o seu material?

Através de amigos, de outros artesãos, através da CEARTE, que nos promove muito, pela qual tenho o diploma de artesão.

Em Castro Daire somos poucos, porque se fossemos muitos podíamos fazer um circuito de artesãos, quatro ou cinco e ir com um carro. A Camara Municipal não patrocina, mas poderia patrocinar, não é? Estando nós legais, neste ramo sou o único, mas há mais legais, com fatura, com diplomas. Há Câmaras que o fazem, a nossa não o faz, não promove.

Está muito fraco, precisávamos de mais apoio.

Que tipo de pessoas procuram o seu produto?

Mais os turistas, e os emigrantes que vêm de visita, e levam para a França e para a Suíça, que querem uma lembrança para amigos, patrões... e depois é curioso, olham para este carro e perguntam, " Então porque é que isto é de vime e não é de madeira?" , e eu explico, que aqui era assim que se fazia e por aí fora...

Cada peça acaba por contar a História?

Sim... às vezes perguntam " Tem aqui um Arado isto é feito de um pau, porque é que este pau assim, e não é liso?" Eu respondo que não é liso porque os paus não eram serrados, eram colhidos no monte, depois de cortar uma árvore e o pau só era esfolado, e aplicava-se como estava.

Acha que podia divulgar por exemplo nas redes sociais, tem página?

Sim, tenho uma página, no facebook FOLGOSA FAZ , onde tenho os meus produtos e posso vender.

Para quem viveu agora neste tempo de confinamento, vendo isto mais parado agora, como vê este próximo ano para este negócio?

É complicado, mas eu mantenho-me positivo, porque há sempre a promoção, um amigo que fala, que conhece, palavra puxa palavra, há esperança, há sempre pessoas que vêm a casa e que levam...

Sr. Alberto, o que lhe falta fazer por si, algum sonho que ficou por fazer por realizar?

Não, por acaso não, nada me paralisou na vida, mesmo estando parado devido à doença do meu filho, nunca parei, mesmo aí promovi a minha arte.

E olhando para o mundo em geral, o que está mal, o que precisa de mudar?

Acho que a mentalidade das pessoas. Acho que sendo mais simples, conseguimos ir mais longe.

O que podemos fazer para mudar a mentalidade das pessoas?

Muita coisa... tentar não estragar tanto, economizar mais, ser mais simples...

Já pensou alguma vez desistir de criar, de ter este negócio?

Já pensei em desistir, sim...

O que o fez não desistir?

Ir a Feiras, mesmo quando não vendo sinto-me mais forte, porquê? Porque convivo consigo e com outros que fazem ou que não fazem, mas que dão força "Vá lá nunca desista, vá para frente, isto não dá hoje dá amanhã" , e acaba por ser verdade, vamos para uma feira não vendemos, mas vamos para outra onde vendemos duas ou três vezes mais! E damos força uns aos outros, que não sou só eu, somos muitos que às vezes não vendemos... mas é sempre para frente...

É bom viver em Castro Daire?

Eu acho que sim.

Porquê?

Porque é diferente, eu passo muitos concelhos, e vejo que o nosso é diferente, a diversidade das coisas, temos o Rio Paiva, temos o Montemuro, tanta coisa a desfrutar, não é?

Não vivia noutro sítio?

Vivia noutro sítio, sim... Mas não era a mesma coisa, sem dúvida!



* Tendo a noção da importância documental, deste projecto, quisemos conferir a origem do termo "Jinço" usado na entrevista, pelo entrevistado. O mesmo confirmou que foi um termo ouvido noutras paragens.

** "Sebe" é o termo usado no concelho de Castro Daire para designar a composição de Vimes ou Tábuas que tem como função segurar, ou isolar a carga do Carro de Bois. A informação foi confirmada por Lúcia Simões, junto de fontes locais em Folgosa e Mosteiro, e  no caso de Cotelo, pelo Prof. Abílio Pereira de Carvalho, ver AQUI.

Edição e revisão Lúcia Simões, Vanessa Duarte, Marisa Pinto, Ida David|Entrevista por Cátia Cardoso |Fotografia Ricardo Oliveira |Transcrição de Lúcia Simões